Mesmo sem consolidar todos os KRs em uma única matriz, já é possível identificar padrões bastante relevantes sobre o desempenho do Programa de P&D da ANEEL e, principalmente, sobre o comportamento das concessionárias.
O programa ainda mede muito mais o processo de inovação do que seus resultados econômicos e sua efetiva adoção pelo setor.
Algumas evidências chamam bastante atenção.
- Existe muito investimento, mas pouca inovação chegando ao mercado
Os indicadores de produção são elevados:
- centenas de projetos executados;
- grande número de produtos desenvolvidos;
- boa quantidade de temas estratégicos.
Entretanto, quando se observam os KRs de resultado, o cenário muda.
No KR20 (Produtos em uso), por exemplo, diversas empresas possuem dezenas de produtos desenvolvidos, mas praticamente nenhum efetivamente utilizado em operação.
Ou seja:
produzir tecnologia não significa incorporá-la ao negócio.
Esse talvez seja o maior gargalo do programa.
- O retorno financeiro ainda é extremamente baixo
O KR04 é talvez o mais preocupante.
A meta é obter retorno financeiro equivalente a 1% do investimento.
No entanto, praticamente todas as empresas apresentam retorno igual a zero.
Pouquíssimas conseguem registrar retorno relevante.
Isso mostra que:
- pouca tecnologia está sendo licenciada;
- poucos produtos geram receita;
- poucas soluções conseguem escala comercial.
- O programa ainda está muito concentrado em TRLs intermediários
O KR15 mostra a distribuição dos investimentos entre TRLs baixos e altos.
Algumas empresas investem bastante em TRLs elevados (mais próximos da aplicação).
Outras continuam concentrando investimentos em pesquisa de menor maturidade.
Isso indica dois grupos distintos:
- empresas focadas em pesquisa;
- empresas focadas em inovação aplicada.
- Os Temas Estratégicos estão bastante concentrados
O KR11 mostra uma concentração muito forte.
Dos 768 projetos:
- TE4 representa quase 28% de todos os projetos;
- TE1 cerca de 13%;
- enquanto TE6 e TE7 representam menos de 5% cada.
Além disso:
36,7% dos projetos sequer estão classificados como estratégicos.
Isso sugere uma possível necessidade de revisão do portfólio estratégico.
- Existem empresas extremamente organizadas na gestão do programa
Os indicadores administrativos (KR08, KR02, KR06, KR07) mostram que algumas concessionárias apresentam excelente governança.
Exemplos:
- relatórios entregues no prazo;
- aderência aos temas estratégicos;
- boa classificação dos projetos.
Ou seja:
algumas empresas já dominam muito bem a execução regulatória do programa.
- Porém boa governança não significa inovação de impacto
Essa talvez seja uma das descobertas mais interessantes.
Há empresas que:
- entregam todos os relatórios;
- classificam corretamente os projetos;
- cumprem metas administrativas;
mas apresentam:
- retorno financeiro zero;
- nenhuma publicação;
- nenhuma patente;
- poucos produtos utilizados.
Ou seja:
executam muito bem o processo, mas geram pouco impacto tecnológico.
- Pouquíssimas empresas fazem transferência efetiva de conhecimento
Os indicadores ligados a:
- publicações;
- pós-graduação;
- registros de propriedade intelectual
continuam baixos para a maior parte do setor.
Isso demonstra que muitos projetos terminam no relatório final.
Não se transformam em:
- formação de pessoas;
- conhecimento científico;
- propriedade intelectual.
- A participação de startups ainda é pequena
Os anexos KR12 e KR13 mostram poucas startups recorrentes recebendo investimentos.
Isso indica que o ecossistema de inovação ainda pode crescer bastante.
O potencial para Open Innovation ainda está longe do ideal.
- Existe forte diferença de maturidade entre concessionárias
Os KRs mostram empresas que aparecem repetidamente com bom desempenho em diversos indicadores.
Algumas apresentam:
- maior adoção dos produtos;
- maior número de registros;
- melhor utilização de TRLs altos;
- maior alinhamento estratégico.
Enquanto outras praticamente não pontuam.
Isso evidencia níveis muito distintos de maturidade em gestão da inovação.
- O programa parece premiar mais a execução do que o impacto
Quando se observa o conjunto dos KRs, percebe-se que muitos indicadores avaliam:
- cumprimento de processos;
- classificação;
- prazos;
- documentação;
- aderência.
Há relativamente poucos indicadores ligados a:
- aumento de produtividade;
- redução de custos operacionais;
- receita obtida;
- economia gerada;
- adoção em larga escala.
Sob a ótica de gestão da inovação, isso significa que o programa ainda mede mais “fazer P&D” do que “gerar inovação”.
Oportunidade de evolução do Programa ANEEL
Uma evolução importante talvez fosse:
Migrar parte da avaliação de input e processo para impacto, incorporando indicadores como:
- ROI tecnológico;
- economia operacional gerada;
- aumento de confiabilidade dos ativos;
- redução de OPEX;
- redução de CAPEX;
- número de tecnologias efetivamente incorporadas à operação;
- difusão das soluções para outras concessionárias;
- geração de novos negócios;
- redução de emissões (ESG);
- impacto regulatório (novas normas, procedimentos ou regulamentações).
Esses indicadores aproximariam o Programa de P&D da lógica de inovação orientada a resultados, fortalecendo sua contribuição para a competitividade do setor elétrico.







