Por Viviane Mak Vieira
Resumo
O Brasil consolidou, ao longo das últimas décadas, uma das maiores infraestruturas científicas da América Latina. Universidades, Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), laboratórios nacionais, centros tecnológicos e equipamentos de alta complexidade foram implantados com recursos públicos e privados, formando uma base científica reconhecida internacionalmente.
Entretanto, apesar desse patrimônio, o país continua enfrentando dificuldades para transformar conhecimento em desenvolvimento tecnológico, novos produtos e competitividade empresarial.
Tradicionalmente, esse problema é atribuído ao baixo investimento privado em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). Embora essa explicação seja parcialmente correta, este trabalho propõe uma hipótese complementar: o principal gargalo pode estar menos na insuficiência da infraestrutura científica e mais na sua baixa mobilização para atender às demandas tecnológicas do setor produtivo.
A partir dessa hipótese, propõe-se o desenvolvimento do Índice Nacional de Utilização da Infraestrutura Científica (INUIC), destinado a mensurar o grau de utilização da infraestrutura científica brasileira como instrumento de apoio à formulação de políticas públicas e à tomada de decisão empresarial.
- Introdução
Esta reflexão não nasce apenas da análise de indicadores ou de políticas públicas.
Ela nasce de uma experiência construída ao longo de mais de vinte anos atuando na gestão de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), envolvendo universidades, Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), centros tecnológicos, empresas e programas estratégicos de inovação em diferentes regiões do Brasil.
Ao longo dessa trajetória, tive a oportunidade de conhecer estruturas científicas do Norte ao Sul do país.
Em muitos casos encontrei laboratórios extremamente bem equipados, adquiridos com recursos públicos de programas de fomento, mas operando muito abaixo de sua capacidade.
Vi equipamentos de milhões de reais permanecendo meses sem utilização.
Vi equipes altamente qualificadas sendo desmontadas após o encerramento de projetos por ausência de novos financiamentos.
Vi instituições enfrentando dificuldades para manter recursos mínimos de operação, chegando, em alguns casos, a correr o risco de interromper atividades por falta de orçamento para despesas básicas, como energia elétrica, manutenção de equipamentos e contratação de pessoal técnico.
Ao mesmo tempo, acompanhei empresas investindo na aquisição de equipamentos semelhantes ou estruturando competências que já existiam dentro das universidades e centros tecnológicos brasileiros.
Não por inexistência da capacidade científica.
Mas porque essa capacidade permanecia invisível, inacessível ou excessivamente burocrática.
Esse aparente paradoxo motivou uma reflexão.
Talvez o principal desafio brasileiro não seja construir mais infraestrutura científica.
Talvez seja aprender a utilizá-la.
- O paradoxo brasileiro
O debate nacional sobre inovação costuma concentrar-se em indicadores tradicionais:
- investimento em P&D;
- número de pesquisadores;
- quantidade de doutores;
- produção científica;
- depósitos de patentes.
Todos esses indicadores são relevantes.
Entretanto, nenhum deles responde uma pergunta aparentemente simples.
Quanto da infraestrutura científica brasileira está efetivamente sendo utilizada para desenvolver tecnologias aplicadas às empresas?
Essa pergunta praticamente não aparece nas políticas públicas.
Também não aparece nos principais indicadores internacionais de inovação.
No entanto, ela pode explicar parte significativa da dificuldade brasileira em transformar ciência em competitividade.
- Uma mudança de paradigma
Tradicionalmente, a política de inovação pode ser representada da seguinte forma:
Pesquisa
↓
Desenvolvimento
↓
Produto
↓
Mercado
Esse modelo ignora um elemento essencial.
A infraestrutura científica.
Na prática, universidades, ICTs e laboratórios não são apenas locais onde se produz conhecimento.
São ativos estratégicos capazes de reduzir riscos tecnológicos, diminuir investimentos privados, acelerar o desenvolvimento experimental e ampliar a competitividade das empresas.
Essa infraestrutura deixa de ser apenas suporte para pesquisa.
Passa a ser um ativo econômico nacional.
- Capacidade instalada não significa capacidade mobilizada
Propõe-se distinguir três conceitos.
Capacidade instalada
Conjunto de laboratórios, equipamentos, pesquisadores e infraestrutura existente.
Capacidade operacional
Parcela da infraestrutura efetivamente disponível para utilização.
Capacidade mobilizada
Parcela da capacidade operacional efetivamente utilizada para desenvolvimento tecnológico, prestação de serviços tecnológicos e interação com empresas.
Essa diferenciação representa o núcleo conceitual deste trabalho.
- O Índice Nacional de Utilização da Infraestrutura Científica (INUIC)
O INUIC é proposto como um indicador destinado a mensurar o grau de mobilização da infraestrutura científica brasileira.
Seu objetivo não é medir produção científica.
Também não é medir investimento.
Seu propósito é responder:
Quanto da capacidade científica instalada está efetivamente gerando desenvolvimento tecnológico e inovação empresarial?
Propõe-se cinco dimensões.
Disponibilidade da infraestrutura (20%)
- equipamentos operacionais;
- laboratórios ativos;
- equipes técnicas;
- infraestrutura compartilhável.
Mobilização científica (20%)
- utilização da infraestrutura;
- usuários externos;
- compartilhamento de equipamentos;
- projetos ativos.
Integração com empresas (25%)
- contratos tecnológicos;
- empresas atendidas;
- prestação de serviços;
- projetos cooperativos.
Desenvolvimento tecnológico (20%)
- protótipos;
- desenvolvimento experimental;
- tecnologias validadas;
- licenciamentos.
Capacidade de transformação (15%)
- startups;
- spin-offs;
- transferência tecnológica;
- impacto econômico.
O índice pode ser representado por:
INUIC = 0,20D + 0,20M + 0,25E + 0,20T + 0,15I
- Aplicações para empresas
A principal contribuição do INUIC não está apenas na formulação de políticas públicas.
Está na tomada de decisão empresarial.
Hoje uma empresa decide investir em PD&I considerando principalmente:
- orçamento;
- equipe interna;
- prazo;
- risco tecnológico.
Entretanto, raramente considera outro ativo disponível.
A infraestrutura científica existente.
Imagine uma empresa interessada em desenvolver um novo sensor, um novo material ou uma nova tecnologia para o setor elétrico.
Antes de investir milhões em novos laboratórios, ela poderia identificar:
- universidades com competência instalada;
- laboratórios nacionais;
- ICTs especializadas;
- equipamentos disponíveis;
- pesquisadores;
- histórico de desenvolvimento semelhante;
- nível de maturidade tecnológica (TRL).
Isso reduz investimento.
Reduz prazo.
Reduz risco tecnológico.
- Uma nova abordagem para os projetos de PD&I
Grande parte dos instrumentos atuais de incentivo concentra-se na execução de projetos específicos.
Propõe-se uma mudança de perspectiva.
O foco deixa de ser apenas financiar projetos.
Passa a ser mobilizar capacidades científicas existentes.
Isso permite que empresas utilizem a infraestrutura nacional como extensão de seus departamentos de engenharia.
Ao mesmo tempo, aumenta a utilização dos ativos científicos financiados pela sociedade.
- Implicações para políticas públicas
Caso a hipótese apresentada seja confirmada, parte dos investimentos futuros poderia priorizar:
- utilização da infraestrutura existente;
- compartilhamento de laboratórios;
- simplificação dos mecanismos de contratação;
- aproximação entre empresas e ICTs;
- fortalecimento das equipes técnicas permanentes;
- financiamento da operação da infraestrutura, e não apenas de sua aquisição.
Essa mudança desloca parte da política pública da expansão patrimonial para a eficiência operacional do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Conclusão
O Brasil já demonstrou capacidade para construir uma infraestrutura científica robusta.
Talvez o próximo desafio seja desenvolver mecanismos capazes de transformá-la em infraestrutura efetivamente mobilizada para o desenvolvimento tecnológico empresarial.
Mais do que ampliar investimentos, precisamos compreender como aumentar a utilização dos ativos científicos que já possuímos.
A proposta do Índice Nacional de Utilização da Infraestrutura Científica (INUIC) representa um primeiro passo nessa direção.
Se conseguirmos medir a mobilização da infraestrutura científica brasileira, poderemos começar a gerir aquilo que hoje permanece praticamente invisível.
E, como ensina a gestão, aquilo que não é medido dificilmente pode ser melhorado.







